657usinas a biomassaestavam em operação no Brasil em outubro de 2026, somando 18.051 megawatts; a maior parte queima bagaço de cana.1
2º país do mundoque mais gerou eletricidade com biomassa em 2024, atrás só da China, segundo a Associação Mundial de Bioenergia.2
86,8%da energia de canaenviada à rede em 2025 foi gerada entre maio e novembro, na época da colheita, segundo a associação das usinas de cana.3
Para comparar esta fonte com as outras em segurança, emissões e terra ocupada, veja a página Comparativos.
Como funciona
Usina de açúcar e etanol Furlan, em São Paulo. Foto: Jose Reynaldo da Fonseca, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
Pense numa chaleira no fogão: o fogo ferve a água e o vapor sai com força pelo bico. Uma usina de cana faz a mesma coisa, só que gigante. Ela queima o bagaço, que é o que sobra da cana depois de espremida, para ferver água. O vapor gira uma turbina, como o vento gira um cata-vento, e a turbina gira um gerador, que faz eletricidade.4
Veja passo a passo
1
Desenho do Mundo Energia Brasil, fora de escala. Os passos seguem o texto abaixo e as fontes das suas notas.
Passo a passo, em detalhe
1. A cana chega do campo. Caminhões levam a cana colhida até a usina. Segundo a associação das usinas, cada tonelada de cana traz cerca de 250 quilos de bagaço e pode deixar no campo cerca de 280 quilos de palha, as folhas e pontas da planta, contando a água que elas têm.5
2. A moenda espreme a cana. Rolos pesados espremem a cana como um espremedor de laranja gigante. Sai o caldo, que vira açúcar e etanol, e sobra a fibra: o bagaço. Pode sobrar até 280 quilos de bagaço por tonelada de cana moída.6
3. A caldeira queima o bagaço. Esteiras levam o bagaço até a caldeira, uma fornalha enorme cercada de tubos cheios de água. O fogo ferve essa água e faz vapor sob alta pressão.46
4. O vapor gira a turbina e o gerador. O vapor passa pela turbina e a faz girar bem rápido. A turbina está presa a um gerador, que transforma o giro em eletricidade.4
5. O vapor ainda esquenta a fábrica. Depois de passar pela turbina, o vapor continua quente e é usado para aquecer o caldo na fabricação do açúcar e do etanol. Fazer calor e eletricidade ao mesmo tempo, com o mesmo combustível, se chama cogeração.7
6. A usina usa a energia e vende a sobra. A eletricidade move as máquinas da própria usina. O que sobra sai pela subestação e vai para as linhas de transmissão. Das 337 usinas de cana em operação em 2024, cerca de 266 venderam energia.8 Quando a colheita acaba, a moenda para, e a geração cai muito.3
Nem toda biomassa é cana. As fábricas de celulose queimam o licor negro, um caldo escuro que sobra quando a madeira é cozida para separar as fibras do papel.910 Outras usinas queimam lenha, cavaco e restos de madeira, ou casca de arroz. E o lixo e o esterco, quando apodrecem, soltam biogás, que pode ser queimado num motor ligado a um gerador.41
Saiba mais: por que caldeira "mais forte" faz mais energia
Quanto maior a pressão do vapor que sai da caldeira, mais eletricidade a turbina consegue tirar dele. Num estudo da Embrapa, caldeiras de 65 bar aparecem como o equipamento convencional, e as de 100 bar, como as mais novas. Trocar as caldeiras por outras de pressão maior e queimar também a palha poderia dobrar a sobra de eletricidade por tonelada de cana, segundo o mesmo estudo.11 Em 2018, segundo a associação das usinas, 169 usinas de cana ainda geravam energia só para o próprio uso, e essa troca de equipamentos é chamada no setor de retrofit.5
Linha do tempo no Brasil
1975
O governo cria o Proálcool, programa para produzir álcool de cana em grande quantidade e usá-lo como combustível.12
1987
A Usina São Francisco, em Sertãozinho (SP), começa a vender para a rede a eletricidade que sobra da queima do bagaço; reportagem a aponta como a primeira a fazer isso.13
2002
O Proinfa, um programa federal, passa a contratar energia de biomassa, eólicas e pequenas hidrelétricas.14 No mesmo ano, uma lei de São Paulo marca o fim gradual da queima da palha nos canaviais.15
2005
A biomassa entra no primeiro leilão de energia nova: 3 usinas a bagaço de cana, com 136 megawatts.16
2007
Usinas e fornecedores de cana de São Paulo assinam um protocolo que antecipa o fim da queima para 2014 nas áreas onde a colheita pode ser feita por máquinas.15
2008
Ano recorde da biomassa nos leilões: 32 usinas e 2.515 megawatts, quase todas a bagaço de cana, e algumas a capim-elefante.16
2017
A lei do RenovaBio cria metas anuais de redução de emissões para as distribuidoras de combustíveis, que provam o cumprimento com créditos de descarbonização, os CBIOs.17
2021
Uma lei prevê contratar 3.000 megawatts de usinas a biomassa em leilão de reserva de capacidade; a regra mudou em 2025.18
2022
Último ano com biomassa nos leilões de geração registrados pela ANEEL até 2025, incluindo uma usina a licor negro.16
2024
A lei do Combustível do Futuro cria uma meta de biometano para quem produz ou importa gás natural.19 Em agosto e setembro, incêndios atingem mais de 181 mil hectares de canaviais em São Paulo.20
2025
O governo deixa as usinas a biomassa fora do leilão de reserva de capacidade de 2026, e a associação da cogeração protesta.21
2026
Começa a valer a meta de biometano, de 1% de redução de emissões do gás natural.19
2035previsto
O plano da EPE prevê 3,7 gigawatts de novas térmicas a biomassa até esse ano.8
Os tipos de biomassa
Cada tipo de biomassa vem de um lugar diferente. Quase sempre, ela é o resto de outra produção: da cana, da celulose, da madeira, do arroz ou do lixo.41
Combustível
De onde vem
Usinas
Potência
Bagaço de cana
O resto da cana espremida nas usinas de açúcar e etanol
432
12.543 MW
Licor negro
O caldo escuro que sobra quando a madeira é cozida para fazer celulose
23
3.718 MW
Lenha, cavaco e restos de madeira
Florestas plantadas, serrarias e fábricas de madeira
113
1.382 MW
Biogás
O gás que sai do lixo, do esgoto e do esterco quando apodrecem
65
278 MW
Outras
Casca de arroz, gás de alto-forno de siderúrgicas a carvão vegetal, capim-elefante, óleos vegetais e etanol
24
130 MW
Os números são do cadastro da ANEEL de outubro de 2026.1
Quem usa a energia. Toda a eletricidade de bagaço e de licor negro vem de autoprodutores, as próprias indústrias que geram a sua energia.22 Em 2025, o bagaço de cana gerou 36.062 gigawatts-hora e o licor negro, 20.325.23 Segundo a associação das usinas de cana, 20.409 gigawatts-hora da cana foram mandados para a rede nesse ano; o resto ficou nas próprias fábricas.3
O biogás. O Brasil tinha 1.803 usinas de biogás em 2025, que produziram quase 5 bilhões de metros cúbicos do gás; cerca de 62% foi usado para gerar eletricidade, segundo levantamento do CIBiogás.24 Parte delas fica junto de quem consome, como geração distribuída: a biomassa tinha 204 megawatts nessa modalidade em 2025.25
Saiba mais: o que é biometano
Biometano é o biogás limpo, com quase tudo o que não é metano retirado. Ele pode ser misturado ao gás natural nos gasodutos. Por isso a lei do Combustível do Futuro obriga quem produz ou importa gás natural a reduzir as emissões com biometano: 1% em 2026, com limite de 10%.19
As leis da biomassa
A biomassa não tem uma lei só dela, como a geração distribuída tem. As regras estão espalhadas em várias leis:
Proinfa (2002). Contratou usinas de biomassa, eólicas e pequenas hidrelétricas com preço garantido; o custo é dividido entre os consumidores.14
Desconto no uso da rede. Usinas a biomassa de até 30 megawatts injetados podem ter desconto de pelo menos 50% nas tarifas de uso da rede, dentro de prazos de outorga e de operação.26
Leilão de capacidade da biomassa. A lei da desestatização da Eletrobras, de 2021, mandou contratar 3.000 megawatts de usinas a biomassa num leilão de reserva de capacidade. A Lei nº 15.269, de 2025, mudou essa regra.18
RenovaBio (2017). Usinas de etanol que comprovam emissões menores ganham créditos, os CBIOs, que as distribuidoras de combustível compram para cumprir suas metas.17
Combustível do Futuro (2024). A Lei nº 14.993 nasceu do PL 528/2020, na Câmara, e criou o programa de incentivo ao biometano.2719
Fim da queima da palha em São Paulo. A Lei estadual nº 11.241, de 2002, marcou 2021 para acabar a queima nas áreas onde a colheita pode ser feita por máquinas e 2031 nas outras. O protocolo de 2007 antecipou esses prazos para 2014 e 2017. Entre 2010 e 2015, a área com queima autorizada pela Cetesb caiu 88%.15
Quem representa o setor
A biomassa junta setores diferentes: a cana, as florestas plantadas e o lixo que vira biogás. Essas entidades mandam sugestões à ANEEL e ao Ministério de Minas e Energia nas consultas públicas, falam em audiências no Congresso e, às vezes, vão à Justiça. O que elas dizem sobre si mesmas, como o número de associados, é dado da própria entidade.
Empresas do setor
UNICAUnião da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia
Indústria de açúcar, etanol e bioenergia.
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Quem faz parte. Diz ser a maior entidade do setor de açúcar, etanol e bioenergia; suas associadas, segundo ela, respondem por mais da metade da cana do país e por quase 50% da bioeletricidade mandada à rede.28 Em 2019, falava em mais de 120 empresas associadas.5
O que defende. O valor do setor e a produção junta de alimentos e bioenergia28; que cada fonte seja paga pelo que entrega ao sistema e uma política de longo prazo para a bioeletricidade.5
Onde aparece. Na Câmara, em audiência da comissão do Código Brasileiro de Energia Elétrica, em 2019.5
Geradores
COGENAssociação da Indústria de Cogeração de Energia
Usinas de cogeração com biomassa, biogás e gás.
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Quem faz parte. Criada em 2003, dizia ter 98 associados em 202329 e 93 em 2024, de usinas que geram com biomassa, biogás e gás natural.30
O que defende. A cogeração e a geração junto do consumo29; nos leilões de capacidade, um produto só para a safra da cana e espaço para térmicas a biogás, biometano, licor negro e resíduos de madeira.30
Onde aparece. Nas consultas públicas do Ministério sobre os leilões de reserva de capacidade de 2024 e de 2026; em 2025, pediu que a biomassa voltasse ao leilão de 2026.303121
Empresas do setor
IbáIndústria Brasileira de Árvores
Empresas de árvores plantadas, como as de celulose e papel.
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Quem faz parte. Criada em 2014, reúne 50 empresas de árvores plantadas, como as de celulose e papel32; é presidida por Paulo Hartung.33
O que defende. O setor de árvores plantadas; diz que 90% da energia usada pelo setor é renovável.10
Onde aparece. Em 2023, pediu ao Senado que o carbono retirado do ar pelas florestas plantadas contasse no mercado regulado de carbono.33
Empresas do setor
ABiogásAssociação Brasileira do Biogás
Empresas de biogás e biometano.
Ver mais
Quem faz parte. Criada em 2013, representa o biogás e o biometano34; é presidida por Renata Isfer.35
O que defende. Um programa nacional para o biogás e o biometano34, que substituam o diesel e o gás de cozinha importados; diz que há 127 usinas de biometano mapeadas até 2030, 58% delas no setor da cana.35
Onde aparece. Junto à ANP, que autoriza as usinas de biometano: em 2025, dizia haver 12 autorizadas e 38 em análise.35
Produtores rurais
OrplanaOrganização das Associações de Produtores de Cana do Brasil
Fornecedores de cana.
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Quem faz parte. Reúne 35 associações de fornecedores de cana, com mais de 12 mil produtores.20
O que defende. Os produtores que plantam cana e vendem às usinas20; a revisão das regras do Consecana, o conselho paulista que define o preço da cana. Em 2023, dizia faltar de 25% a 30% no preço.36
Onde aparece. No Consecana, o conselho de São Paulo que define o preço da cana.36
Do lado do governo, quem faz as regras e acompanha o setor são o Ministério de Minas e Energia, a ANEEL, a EPE e o ONS. A página Quem opera explica o papel de cada um.
Quem são os donos
Os maiores donos de usinas a biomassa são fábricas de celulose e grupos de açúcar e etanol. No cadastro da ANEEL de outubro de 2026, a Suzano tem 9,4% da potência a biomassa em operação; depois vêm a Klabin (3,6%), a Raízen (2,5%) e a Bracell (2,5%). São 500 donas, e as dez maiores somam 28,2%.1
Grandes e pequenas. Mais de um terço das usinas a biomassa é pequena: 229 usinas têm até 5 megawatts cada, mas somam só 3,2% da potência. Já as 26 usinas com mais de 100 megawatts somam 26,2%. A maior parte da potência (53,6%) está em 186 usinas de 30 a 100 megawatts.1 As maiores de todas são fábricas de celulose que queimam licor negro, como a Bracell, em São Paulo, com 409,3 megawatts.1
Onde estão as usinas
São Paulo na frente. São Paulo tem 7.020 megawatts em 243 usinas, 38,9% da potência a biomassa do país. Depois vêm Mato Grosso do Sul (2.432 megawatts), Minas Gerais (2.117), Goiás (1.527) e Paraná (1.302).1 A cana é plantada e processada principalmente no Sudeste e no Centro-Oeste.4 Segundo a associação das usinas, o Centro-Sul tinha 92,2% da potência a bagaço e palha de cana em junho de 2026.3
A potência em cada estado
O desenho abaixo mostra como a biomassa cresceu. Cada ponto junta as usinas de uma região, e ele cresce conforme as usinas de hoje entram em operação, ano a ano. Até 2000, já operavam 3,5 gigawatts dessas usinas; em 2010, eram 9,8 gigawatts, e hoje são 18,1.1 Aperte o botão para ver os anos passarem, ou arraste a barra para ir direto a um ano. Logo abaixo, o gráfico mostra o total de cada ano.
A biomassa crescendo ano a ano
bagaço de canalicor negrooutrascírculo maior = mais potência
2026
–bagaço de cana
–licor negro
–outras biomassas
Potência das usinas a biomassa em operação em outubro de 2026, somada pelo ano em que cada uma entrou em operação; o primeiro ano junta tudo o que entrou até 2000. Usinas que fecharam antes não aparecem, e as ampliadas contam pela data do cadastro. Pontos: usinas agrupadas em áreas de cerca de 75 km. Fonte: ANEEL, SIGA (fonte 008). Contorno dos estados: IBGE (fonte 134).
O mapa mostra onde estão as usinas a biomassa hoje. Cada círculo é uma usina, maior quando a potência é maior, e a cor mostra o combustível. Passe o dedo ou o mouse sobre um círculo para ver o nome, a dona e a potência.1
O mapa de hoje
Mapa interativo, outubro de 2026. Cada círculo é uma usina a biomassa em operação; a cor mostra o combustível e o tamanho, a potência. Toque num círculo para ver os detalhes. Fonte: ANEEL, SIGA (fonte 008).
O Brasil e o mundo
O mundo gerou 698 terawatts-hora de eletricidade com biomassa em 2024, segundo a Associação Mundial de Bioenergia. A China ficou com 30% disso, 209 terawatts-hora. O Brasil teve um recorde, de 58 terawatts-hora, à frente dos Estados Unidos, com 47.2
Um terawatt-hora é igual a mil gigawatts-hora.
Empregos. A IRENA, a agência internacional de energia renovável, estimou em 2024 cerca de 58 mil empregos ligados à biomassa sólida no Brasil, como bagaço e madeira, e 85 mil ligados ao biogás, contando os diretos e os indiretos. Nos biocombustíveis líquidos, como o etanol e o biodiesel, eram 762 mil, a maior força de trabalho do mundo nesse setor.37
O que é feito aqui e o que vem de fora
O combustível é todo daqui. O bagaço e o licor negro queimados nas usinas são produzidos no Brasil: 176,4 milhões de toneladas de bagaço e 45,9 milhões de toneladas de licor negro em 2025.9 E quem queima é a própria indústria que o produz.22
As máquinas também. Sertãozinho, no interior de São Paulo, é um polo de fábricas de equipamentos para usinas de açúcar e etanol: um projeto de lei estadual de 2026 fala em cerca de 2.500 empresas ligadas à indústria na cidade.38 Uma delas, a TGM, fundada em 1991, fabrica turbinas a vapor em Sertãozinho e foi comprada pela WEG, outra empresa brasileira.39
Quanto ainda dá para aproveitar
Se toda a cana fosse aproveitada ao máximo, com caldeiras modernas e a palha queimada junto do bagaço, as usinas poderiam mandar para a rede 142 terawatts-hora por ano, segundo uma apresentação da associação das usinas na Câmara dos Deputados, em 2019. A oferta de 2018 foi de 35,4 terawatts-hora.5
O que falta para chegar lá, segundo a mesma apresentação, é trocar as máquinas das usinas que ainda geram só para si e recolher mais palha do campo.5 Recolher a palha tem custo, e ela ajuda a proteger o solo: os incêndios de 2024 mostraram isso, quando a perda da cobertura de palha prejudicou o controle do mato e a retenção de água nos canaviais, segundo a associação dos fornecedores de cana.20
Problemas da biomassa
Pouco visível nos dados do ONS. O cadastro de capacidade do ONS, consultado em 2026, soma cerca de 4.235 megawatts de unidades a biomassa, e a base de geração por usina registra 6,28 terawatts-hora em 2025; bem menos que o total nacional do BEN e da ANEEL. As fontes não explicam a diferença.40
Fogo no canavial. Em 2024, incêndios atingiram mais de 181 mil hectares de cana em São Paulo, com prejuízo estimado em R$ 1,2 bilhão para os produtores, segundo a associação dos fornecedores de cana.20
Longe dos leilões. A biomassa vendeu 8.696 megawatts nos leilões de geração entre 2005 e 2022, mais de um quarto deles só em 2008. Depois de 2022, nenhuma usina a biomassa vendeu energia nos leilões de geração registrados pela ANEEL até 2025.16 Em 2025, o governo deixou a biomassa fora do leilão de reserva de capacidade de 2026. A associação da cogeração disse que, no leilão de 2025, que foi cancelado, as térmicas a biomassa cadastradas somavam cerca de 7 gigawatts.21
A biomassa nos leilões
Só gera na colheita. Cana não se colhe o ano todo. A geração das usinas de cana se concentra entre abril e novembro, e quase para no verão.3 Isso tem um lado bom: a colheita coincide com o período seco, quando os reservatórios das hidrelétricas baixam.341
O desenho abaixo mostra um ano de colheita, mês a mês. Arraste a barra ou aperte o botão: as colunas mostram a energia de biomassa mandada para a rede, e a linha mostra quanto água havia nos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste.342
Um ano de safra
Janeiro
–biomassa mandada para a rede no mês
–água guardada nos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste, no fim do mês
2025. Colunas: energia de todas as biomassas mandada para a rede, em gigawatts-hora, segundo a associação das usinas de cana, com dados da CCEE (fonte 098). Linha: energia armazenada nos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste no último dia de cada mês, em % do máximo, ONS (fonte 053).
Em 2025, a biomassa mandou para a rede entre 2.330 e 3.672 gigawatts-hora por mês de maio a novembro, e menos de 700 em janeiro e em fevereiro.3 Nesses mesmos meses de colheita, a água guardada nos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste caiu de 68,4% no fim de maio para 41,6% no fim de novembro.42
Quem paga a conta
Imagine uma usina que recebe um desconto para usar os fios da rede. Os fios continuam custando o mesmo, e a diferença é paga por outra pessoa: no Brasil, quem paga são os consumidores, pela conta de luz.2643
Proinfa. O custo da energia contratada pelo Proinfa, que inclui biomassa, é dividido entre todos os consumidores da rede nacional, na proporção do consumo. Ficam de fora só as famílias com Tarifa Social.14
Descontos. O desconto que as usinas a biomassa e outras fontes incentivadas têm nas tarifas de uso da rede26 é compensado pela CDE, o fundo pago pelas contas de luz. Em 2026, os itens da CDE ligados a essas fontes somavam R$ 18,1 bilhões, para todas elas juntas.43 A página Tarifa explica a CDE.
Mitos e dúvidas comuns
"Usina de cana só faz açúcar e etanol?" Não. Das 337 usinas de cana em operação em 2024, cerca de 266 venderam energia.8 Em 2025, o bagaço e a palha da cana mandaram 20.409 gigawatts-hora para a rede, segundo a associação das usinas.3
"Biomassa é só cana?" Não. Também há usinas a licor negro, restos de madeira, lenha, biogás de lixo e casca de arroz.1
"Queimar bagaço é igual a queimar carvão?" Não exatamente. A cana cresce de novo e, ao crescer, tira gás carbônico do ar.4 Mas a queima na usina solta gás carbônico e poluentes, e ainda não há consenso científico sobre se a biomassa é neutra para o clima.44
"Ainda se queima cana antes da colheita?" Em São Paulo, quase não. A lei e o protocolo de 2007 acabaram com a queima da palha na maior parte dos canaviais, e a área com queima autorizada caiu 88% entre 2010 e 2015.15 Os incêndios de 2024 não foram queima autorizada.20
O futuro em números
Usinas novas. O plano da EPE prevê 3,7 gigawatts de novas térmicas a biomassa até 2035.8 Segundo a associação das usinas, entraram 11 usinas de cana, com 740 megawatts, em 2025, e estão previstas 9 usinas, com 195 megawatts, em 2026, e 3 usinas, com 500 megawatts, em 2027.3
Para quem vender. A venda de energia das usinas de cana nos leilões vem diminuindo, e a tendência é que o mercado livre e o mercado de curto prazo, juntos, concentrem a maior parte das vendas.8
Biometano. A meta de biometano começa em 1% em 2026 e pode chegar a 10%.19
Outros impactos
Ar. Como depende de queima, a biomassa pode soltar partículas e óxidos de nitrogênio, que ajudam a formar ozônio poluente perto do chão.44
Agricultura. O cultivo para energia exige cuidados: não desmatar áreas naturais para plantar, usar agrotóxicos e fertilizantes de forma controlada e tratar os resíduos.4
Clima. A biomassa é renovável: as plantas crescem de novo e, ao crescer, tiram gás carbônico do ar.4 Mas a queima na usina solta gás carbônico, e ainda não há consenso científico sobre se a biomassa é neutra para o clima.44
Terra. Culturas plantadas só para energia podem exigir áreas grandes, e o uso de resíduos reduz essa área.44 No bagaço e no licor negro, o combustível vem de outras produções, a da cana e a da celulose.9
Fontes e método
Ver como os números foram calculados
As informações desta página vêm do Balanço Energético Nacional e do Plano Decenal da EPE, da página da EPE sobre fontes de energia, de dados abertos da ANEEL e do ONS, de leis federais e de São Paulo, de um estudo da Embrapa, da UNECE, da Associação Mundial de Bioenergia, da IRENA, de documentos e da página das associações do setor (UNICA, COGEN, Ibá, ABiogás), do CIBiogás, de um projeto de lei da Assembleia de São Paulo e de reportagens identificadas nas notas.
Como os números foram calculados. Usinas e tipos: cadastro da ANEEL (SIGA) de outubro de 2026, somando todos os combustíveis de biomassa. Donos: a parte de cada empresa é a potência da usina multiplicada pela sua participação. Tamanho das usinas: potência fiscalizada de cada usina no SIGA, em faixas. Crescimento ano a ano: potência das usinas em operação hoje, pelo ano de entrada em operação no SIGA; usinas que fecharam antes não aparecem, e usinas ampliadas contam pela data registrada. Mapa: ponto informado pelo SIGA. Um ano de safra: energia de biomassa para a rede, mês a mês, do boletim da associação das usinas de cana (dados da CCEE), e energia armazenada nos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste no último dia de cada mês, do ONS. Leilões: soma da potência das usinas a biomassa vendidas em cada leilão de geração, de 2005 a 2025. CDE: soma dos três itens de despesa ligados às fontes incentivadas em 2026, que ainda não terminou. Dados do ONS: cadastro de capacidade consultado em 2026 e geração por usina de 2025.
Onde os números diferem. A associação das usinas de cana conta 433 usinas e 12.758 megawatts de bagaço e palha em junho de 2026; o cadastro da ANEEL de outubro, 432 usinas e 12.543 megawatts de bagaço. A capacidade do BEN não inclui a geração distribuída (204 megawatts de biomassa em 2025). O potencial de 142 terawatts-hora e o número de usinas que só geram para si são de uma apresentação da associação, de 2019, e não foram atualizados.
O que ainda falta. Quanto da palha da cana já é queimada nas caldeiras, o grupo dono de cada usina de cana (o cadastro mostra a empresa de cada usina, não o grupo) e o preço da energia de biomassa no mercado livre: as fontes usadas não trazem esses dados.
Notas
Ver as 44 notas, com a fonte de cada número
ANEEL, SIGA, dados abertos, cálculo sobre os dados de outubro de 2026 (fonte 008). ↩
World Bioenergy Association, Global Bioenergy Statistics Report 2025, resumo, novembro de 2025 (fonte 233). ↩
UNICA, "Geração para a rede e capacidade instalada", junho de 2026, com dados da CCEE e da ANEEL (fonte 098). ↩
EPE, página Fontes de energia, seção Biomassa (fonte 057). ↩
UNICA, Zilmar José de Souza, "Geração de energia elétrica a partir da biomassa", apresentação em audiência pública na Câmara dos Deputados, 26 de novembro de 2019, com dados do CTC (fonte 231). ↩
Batista e Ramos, "Energia elétrica fornecida por usinas de açúcar e álcool", Embrapa, 2008, p. 241 (fonte 230). ↩
Batista e Ramos, "Energia elétrica fornecida por usinas de açúcar e álcool", Embrapa, 2008, p. 235 e 236 (fonte 230). ↩
EPE, Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, p. 95, 96 e 303 (fonte 002). ↩
EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Tabelas 2.14 e 2.15, p. 48 e 49 (fonte 001). ↩
Batista e Ramos, "Energia elétrica fornecida por usinas de açúcar e álcool", Embrapa, 2008, p. 242 (fonte 230). ↩
Decreto nº 76.593, de 14 de novembro de 1975, art. 1º (fonte 234). ↩
NovaCana, com G1, "Alternativa para possíveis crises energéticas, cogeração com bagaço da cana-de-açúcar chega a 30 anos", 29 de junho de 2017 (fonte 232). ↩
Lei nº 10.438/2002, art. 3º, I, a e c (fonte 048). ↩
Governo de São Paulo, SEMIL, "Esclarecimento sobre notícia de proibição de emissão de licenças", 20 de maio de 2016, sobre a Lei estadual nº 11.241/2002 e o Protocolo Agroambiental (fonte 236). ↩
ANEEL, dados abertos, resultado de leilões de geração, 2005 a 2025, cálculo sobre os dados (fonte 040). ↩
Lei nº 13.576/2017, art. 1º, 5º, V, e 7º (fonte 097). ↩
Lei nº 14.182/2021, art. 1º, § 15-A, com a redação da Lei nº 15.269/2025 (fonte 043). ↩
CIBiogás, "Programa Nacional de Incentivo ao Biometano na Lei do Combustível do Futuro", 19 de outubro de 2024 (fonte 235). ↩
Forbes Brasil, com Reuters, "Queimadas em canaviais atingem mais de 180 mil hectares e prejuízo vai a R$ 1,2 bi", 14 de setembro de 2024, com dados da Orplana (fonte 237). ↩
eixos, "Cogeradores questionam ausência de biomassas no LRCAP 2026", 24 de outubro de 2025 (fonte 238). ↩
EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Tabelas 5.3, 5.4 e 5.5, p. 107 a 109 (fonte 001). ↩
EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Tabela 5.3, p. 107 (fonte 001). ↩
Cenário Energia, "Biogás avança no Brasil com 1.803 plantas e impulsiona nova fronteira energética com biometano", 20 de abril de 2026, com dados do Panorama do Biogás no Brasil 2025, do CIBiogás (fonte 239). ↩
EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Tabela I.2, p. 178 (fonte 001). ↩
Lei nº 9.427/1996, art. 26, §§ 1º e 1º-C (fonte 031). ↩
Câmara dos Deputados, ficha da Lei nº 14.993, de 8 de outubro de 2024, originada do PL 528/2020 (fonte 244). ↩
UNICA, página "About UNICA", consultada em outubro de 2026 (fonte 240). ↩
COGEN, comunicado à imprensa sobre a capacidade de cogeração, 9 de outubro de 2023, com dados da ANEEL (fonte 243). ↩
COGEN, contribuição à Consulta Pública nº 160/2024 do Ministério de Minas e Energia (leilão de reserva de capacidade de 2024), 24 de abril de 2024 (dado de associação) (fonte 1327). ↩
Cenário Energia, "Cogen defende inclusão de térmicas a biomassa no LRCAP 2026 como alternativa firme e sustentável", 30 de setembro de 2025 (fonte 1328). ↩
InfluenceMap (LobbyMap), perfil da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), consultado em outubro de 2026 (fonte 1329). ↩
MAPA, Boletim informativo nº 36, "Associação é referência no debate público e na implantação do biogás no Brasil", 16 de fevereiro de 2016 (fonte 241). ↩
novaCana, entrevista com Tiago Santovito (ABiogás), 21 de agosto de 2025 (dado de associação) (fonte 1330). ↩
Revista Cultivar, "Melhora da precificação da cana-de-açúcar é urgente, diz Orplana", 14 de setembro de 2023 (fonte 1331). ↩
IRENA e OIT, Renewable Energy and Jobs: Annual Review 2025, janeiro de 2026, p. 27, 28 e 31 (fonte 129). ↩
Assembleia Legislativa de São Paulo, Projeto de Lei nº 252/2026, justificativa, 23 de março de 2026 (fonte 245). ↩
WEG, comunicado "WEG announces the acquisition of TGM, a Brazilian manufacturer of steam turbines and transmissions" (fonte 246). ↩
ONS, dados abertos, capacidade instalada e geração por usina (2025), cálculo sobre os dados (fontes 009 e 066). ↩
EPE, Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, p. 86 (fonte 002). ↩
ONS, dados abertos, EAR diário por subsistema, 2025, cálculo sobre os dados (fonte 053). ↩
ANEEL, dados abertos, CDE: custeio dos benefícios tarifários, cálculo sobre os dados (fonte 046). ↩
UNECE, Integrated Life Cycle Assessment 2022, p. 19, 20 e 81 (fonte 059). ↩